sábado, 21 de abril de 2012

Laurindo

João Batista Santos

Laurindo era um peão, viveu sempre trabalhando na vida rural dos campos de cima da serra. Domou potros, caiu de cavalos, casou, gerou filhos, sendo que a maioria deles também se tornaram peões.

Laurindo trabalhava de sol a sol, amava a mulher e exemplava os filhos. Todos os dias sondava os céus, as nuvens, a direção dos ventos, os sons dos animais no capão de mato, pois era necessário para sua vida estar a par do clima, se chovia ou não, se viria mais frio, no inverno sempre soprava o vento minuano.
           
Nos momentos de folga Laurindo tomava cachaça. No rádio ouvia Tonico e Tinoco.

Um dia o convidaram para assistir um culto numa pequena casa, na periferia da cidade, de uma nova igreja, de uns crentes, a Assembléia de Deus. Ali Laurindo encontrou Jesus. Parou de beber, de brigar, passou a ter uma nova vida, com seus novos irmãos em Cristo, uma vida que continuaria melhor nos céus. Em todos os domingos passou a se ver o cavalo de Laurindo amarrado ao lado do pequeno templo.

Um dia Laurindo ficou viúvo. Triste. Foi morar na cidade e passou a andar a pé. Era o meu terror infantil, usava preso à cintura um grande canivete, eu era obrigado a me comportar, caso contrário Laurindo viria me castrar, coisa que ele fez muitas vezes com os porcos do chiqueiro.

Lembro de Laurindo no armazém de meu pai, sempre entre um chimarrão e um causo corria o epílogo: “É um fato, mas é um ato”.

A palavra é ato. Aqueles homens me deram a palavra.